A Técnica

Pincéis Imaginários
 

por Cláudio Rosa Cruz


    Não foi à toa que dentre os primeiros fotógrafos a maioria era de pintores. Talvez "pintores frustrados" como sugeriu Baudelaire naquela época.


    Não foi à toa também que o advento da fotografia coincidiu com auge do realismo na pintura, quando o reconhecimento da obra estava condicionado a verossimilhança e fiel reprodução.


    Fato é que a fotografia fez a intelectualidade européia de então passar por uma profunda reflexão. O novo instrumento de concepção de realidade impeliu a pintura a buscar outras formas de interpretação. Manet e Toulouse Lautrec, por exemplo, refugiaram-se nas cenas de interiores e de movimento, aproveitando-se das limitações técnicas das câmaras da época. Hoje, talvez, aquele refúgio pareceria mais um simples biombo.


    Mas a pintura não morreu, como então previa Delaroche. Muito pelo contrário. Encontrou-se em outros lugares, ampliou os seus domínios no universo infinito a seu alcance, como convém e são as coisas essenciais.


    A fotografia, que ora reina quase absoluta no campo documental, nunca deixou de insinuar-se à arte. O pictorialismo na fotografia é quase tão antigo quanto ela própria. Surgiu na segunda metade do século XIX. "Os fotógrafos pictorialistas tentavam através das suas imagens fazer uma aproximação à pintura, manipulando muitas vezes as fotografias à mão, alterando a granulação, os tons, modificando ou suprimindo elementos de forma a assemelhar as fotografias a pinturas ou aquarelas. Se, por um lado, a fotografia perdia sua relação com o real, por outro, o fotógrafo começava a ser visto como criador de uma realidade. A fotografia era deste modo, a realidade segundo o ponto de vista do fotógrafo".


    Neste campo de batalha, a fotografia encontrou recentemente uma poderosa arma para alcançar posições além da sua província. Trata-se do computador, cujos recursos facilitam sobremaneira a tarefa antes paciente e interminável de retocar e transformar a realidade pensada pelo fotógrafo.


    Estamos então aqui, nesta marcha, no encalço de algo tão comum aos sacerdotes de pincéis.


    Em nossa produção, a fotografia é a parte fundamental do processo. Não é feita isoladamente, mas concebida para ele, avistando-se o seu resultado.


    Escolhemos um tema local, espetáculo popular genuíno e de maior projeção. Procuramos encontrar a ferramentas para expressá-lo à nossa maneira.


    Assim fizemos com as obras expostas. Colecionamos por 3 anos imagens em situações particularmente difíceis - pouca luz, movimento rápido e, por vezes, extremo contraste como nos fogos tocados na sombra da noite.


    Selecionamos as mais expressivas ao nosso ver, que dessem maior cobertura ao tema na tentativa de traduzir, de outra forma, a beleza estética que as manifestações juninas possuem.


    Sobre as fotografias, aplicamos sucessivamente tratamentos paramétricos e filtros minuciosamente calibrados para lhes afirmar as cores e resgatar os contornos muitas vezes perdidos nos movimentos.


    Por fim, a impressão é outra parte importante deste processo. A escolha da mídia e tipo de impressão dará a imagem trabalhada a textura mais conveniente na busca da essência pictorial.

 

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